- POEMA
- HOJE RECEBI FLORES.
- MAIO
- Hoje recebi flores!
- Não é o meu aniversário
- ou nenhum outro dia especial;
- tivemos a nossa primeira discussão ontem à noite,
- ele me disse muitas coisas cruéis que me ofenderam de verdade.
- Mas sei que está arrependido e não as disse a sério,
- porque ele me enviou flores hoje.
- Não é o nosso aniversário ou nenhum outro dia especial.
- JUNHO
- Ontem ele atirou-me contra a parede e começou a asfixiar-me.
- Parecia um pesadelo, mas dos pesadelos nós acordamos
- e descobrimos que não é real.
- Hoje acordei cheia de dores e com golpes em todos lados.
- Mas eu sei que está arrependido
- porque ele me enviou flores hoje.
- E não é Dia dos Namorados ou nenhum outro dia especial.
- JULHO
- Ontem à noite bateu-me e ameaçou matar-me.
- Nem a maquiagem ou as mangas compridas poderiam ocultar
- os cortes e golpes que me ocasionou desta vez.
- Não pude ir ao emprego hoje
- porque não queria que percebessem.
- Mas eu sei que está arrependido
- porque ele me enviou flores hoje.
- E não era Dia das Mães ou nenhum outro dia.
- AGOSTO
- Ontem à noite ele voltou a bater-me, mas desta vez foi muito pior.
- Se conseguir deixá-lo, o que é que vou fazer?
- Como poderia eu sozinha manter os meus filhos?
- O que acontecerá se faltar o dinheiro? Tenho tanto medo dele!
- Mas dependo tanto dele que tenho medo de deixá-lo.
- Mas eu sei que está arrependido,
- porque ele me enviou flores hoje.
- SETEMBRO
- Hoje é um dia muito especial: é o dia do meu funeral.
- Ontem finalmente ele conseguiu matar-me. Bateu-me até eu morrer.
- Se ao menos tivesse tido a coragem e a força para deixá-lo...
- Se tivesse pedido ajuda profissional...
- Hoje não teria recebido flores
Autoria desconhecida
- ...ela sempre sonhava que iria melhorar..
No ano passado, por Mário Quintana
No ano passado...
Já repararam como é bom dizer "o ano passado"? É como quem já tivesse atravessado um rio, deixando tudo na outra margem...Tudo sim, tudo mesmo! Porque, embora nesse "tudo" se incluam algumas ilusões, a alma está leve, livre, numa extraodinária sensação de alívio, como só se poderiam sentir as almas desencarnadas. Mas no ano passado, como eu ia dizendo, ou mais precisamente, no último dia do ano passado deparei com um despacho da Associeted Press em que, depois de anunciado como se comemoraria nos diversos países da Europa a chegada do Ano Novo, informava-se o seguinte, que bem merece um parágrafo à parte:"Na Itália, quando soarem os sinos à meia-noite, todo mundo atirará pelas janelas as panelas velhas e os vasos rachados".Ótimo! O meu ímpeto, modesto mas sincero, foi atirar-me eu próprio pela janela, tendo apenas no bolso, à guisa de explicação para as autoridades, um recorte do referido despacho. Mas seria levar muito longe uma simples metáfora, aliás praticamente irrealizável, porque resido num andar térreo. E, por outro lado, metáforas a gente não faz para a Polícia, que só quer saber de coisas concretas. Metáforas são para aproveitar em versos...Atirei-me, pois, metaforicamente, pela janela do tricentésimo-sexagésimo-quinto andar do ano passado.Morri? Não. Ressuscitei. Que isto da passagem de um ano para outro é um corriqueiro fenômeno de morte e ressurreição - morte do ano velho e sua ressurreição como ano novo, morte da nossa vida velha para uma vida nova.